domingo, 2 de março de 2008

Reflexões sobre o exercício da profecia no culto

Mas quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e consolação dos homens. Quem fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja. (I Co 14. 3- 4 NVI)

A incompatibilidade da doutrina pentecostal com os princípios da Reforma são recordados mediante a polêmica do dom de profecia. Os constantes exageros de pentecostais desinformados e mal orientados tem levado esse dom muitas vezes para a banalização e é fácil identificar inúmeras “profecias” erradas. Em contrapartida, argumentam os apologistas do desviacionismo que o exercício da profecia minaria a autoridade bíblica, ou pelo menos colocaria o dom na mesma categoria da Revelação escrita, as Sagradas Escrituras. Seria a crença na atualidade do dom de profecia uma afronta ao principio reformado de “Sola Sprictura”?
O pentecostalismo sempre foi identificado como uma doutrina fundamentalista[1]. No cerne da doutrina pentecostal, os princípios fundamentalistas reinam absolutos nas confissões de fé das denominações do carisma. Entre os fundamentos, está a crença na infalibilidade, inspiração, inerrância, autoridade e suficiência das Santas Escrituras. Ora, os pentecostais tem um profundo respeito pela Palavra de Deus, mas esse respeito se mantém mediante a doutrina da continuidade dos dons de revelação (profecia, palavra do conhecimento e palavra da sabedoria)?
A resposta é sim! Pois o exercício bíblico da profecia, de maneira alguma diminuirá a autoridade bíblica. Então, como a atualidade da profecia se mantém diante do cânon bíblico?
1) As profecias no contexto neotestamentário e contemporâneo não são infalíveis. A missiva paulina aos coríntios deixa bem claro que o dom de profecia não produz palavras infalíveis, pois esse dom dever passar por um rigoroso julgamento. O apóstolo escreveu: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”(I Co 14.29). A igreja não deve acatar nenhuma profecia antes de averiguar sua autenticidade (v. 29).
2) A profecia vem do impulso do Espírito Santo. Sendo impulsionada pelo Espírito Santo, a profecia é dado a homens que podem misturar a mensagem com seus erros e desejos (por isso do julgamento). A profecia é fruto de impulso e não de inspiração plenária ou/e verbal por parte do Espírito Santo; “é algo que o profeta pode controlar. Ele recebe os pensamentos do Espírito Santo e transmite racionalmente, com suas próprias palavras”[2].
Se entende que a profecia não é mecânica, mas sim dinâmica, como lembra o teólogo Myer Pearlman[3]. Sendo a profecia dinâmica, onde o homem é impulsionado e não robotizado, essas profecias de primeira pessoa (Eu o Senhor digo!) e onde a fonética se altera (mulheres que falam em voz masculina, por ex.) precisam se revistas biblicamente.
3) A profecia sempre será mediada pelas Sagradas Escrituras. Profecias que contradizem uma doutrina bíblica ou que tentam estabelecer doutrinas e costumes, devem ser imediatamente rejeitadas. Nenhuma direção deve ser tomada por meios de profecias, pois somente a Bíblia é o guia do cristão em seu modus vivendi. Revela-se como imaturidade as “reuniões de revelação”, onde a profecia é vista como uma meio de orientação.
4) As profecias devem ser julgadas. Quando Paulo no verso 29 diz que a profecia precisa ser julgada, subtende que essas palavras precisam se avaliadas pelo crivo das Escrituras. A verdadeira profecia nunca poderá acrescentar ou retirá qualquer parte da Bíblia. A doutrina precede a experiência (como orientadora) e não o contrário. A experiência sempre será importante para os pentecostais, mas os pentecostais não constroem doutrinas em experiências, suas teologias sistemáticas estão baseadas na Bíblia. O julgamento da profecia mostra que exercer esse dom não é sinal de espiritualidade, como muitos julgam ao contemplar a exterioridade do dom.
5) As profecias servem como palavras de encorajamento, edificação e consolação na coletividade. Esse principio é bem claro em I Co 14.3-4, pois as profecias podem até ser direcionadas a um indivíduo, mas sua aplicação servirá para toda a comunidade. A profecia tem um conteúdo de encorajamento(consolação) e edificação do Corpo de Cristo, mas não servem como guias de viagens ou negócios e muito menos para direcionar casamentos e administrar igrejas.
Lucas registrou em Atos 21.10-14 a profecia de Ágabo, onde ele falou que Paulo seria preso e encarcerado indo a Jerusalém, mas Paulo não desistiu da viagem e essa profecia certamente confortou o coração de Paulo e das igrejas que o acompanhavam, mostrando o controle e a soberania de Deus. Nessa passagem fica claro que a profecias serviram para encorajamento e não direcionamento na vida dos primeiros cristãos.
Algumas igrejas são administradas por “profetas e profecias”, mas como bem observou o teólogo pentecostal Claudionor Corrêa de Andrade: “Embora importantes, os dons espirituais não são governativos, nem administrativos. Para essas funções, o Senhor Jesus designou os dons ministeriais”[4].
6) A profecia não é uma experiência de êxtase. Paulo diz que profetize um após o outro, tendo um certo limite no número de profecias (v.29). Se alguém pode esperar o outro para transmitir uma mensagem profética, então essa pessoa tem o total controle de suas faculdades físicas e psicológicas. Ninguém, no momento da profecia, precisa fazer algum “mantra” ou perturbar a ordem do culto.
A profecia ou qualquer dom, não deve servir de entretenimento das massas ou motivos para shows. Os dons foram dados para edificação do Corpo e não para o espetáculo ao corpo. Constitui-se como exagero os inúmeros movimentos corporais que algumas pessoas fazem antes dalguma profecia.
7) A profecia é sobrenatural, não sendo fruto dos desejos humanos. Se instalou uma mania anti-bíblica no meio pentecostal de mandar as pessoas “profetizarem” sobre suas vidas ou sobre a vida do irmão sentado ao lado, no banco. Essa “profecia” é fruto do vontade humana e dos desejos de bênçãos, sendo que nada tem haver com a profecia bíblica. A profecia, com acima citado, serve para edificação da Igreja, do corpo, da coletividade e não para “determinar” bênçãos. Na pode-se confundir profecias com palavras “positivas”, pois essa prática além de anti-bíblica, reflete a banalização do dom.
8) A profecia não é o mesmo que sermão, mas se relacionam. O sermão é fruto de preparada antecipado e a profecia é um impulso espontâneo. Essa fato não significa que a profecia é melhor que o sermão, ambos devem passar pelo crivo bíblico.
As profecias, muitas vezes, se misturam com as palavras planejadas do sermão. Até mesmo no cântico de Maria houve uma profecia (leia e compare Lc 1.46- 48 e 11.27). O erudito pentecostal Gordon Chown comenta: “O dom de profecia é um recurso de que o crente dispõe para falar aos homens de modo sobrenatural. O ministro que o recebe deve ter sempre algo especial para oferecer ao seu rebanho, além da essencial exposição e divulgação das boas novas”[5].
Quando um cristão contemporâneo ler alguns sermões de Charles Spurgeon sobre igreja de seus dias, logo pensa que o texto é atual. Spurgeon é um exemplo de profeta dos sermões. Hoje, o pregador deve buscar a orientação de Deus, por meio da oração, para que as profecias edifiquem, encorajem e consolem a igreja, juntos aos sermões expositivos.
9) A profecia é um dom do coletivo e não somente para clérigos. Paulo incentiva a busca de toda a igreja pelo dom de profecia (I Co 14.1, 31) Esse dom pode ser exercido por todos os membros do corpo, não sendo restritos a liderança da Igreja. A coletividade do dom é “para que todos aprendam e todos sejam consolados”(v. 31). Os dons são para a unidade e não meio de divisões e formações de grupos “especialmente espirituais”.
10) A profecia não deve ser conteúdo para ensino bíblico. A igreja que ensina conteúdos de profecias não sabe nada em relação a suficiência da Maior Profecia: A Bíblia! Somente os hereges constroem seu compêndio doutrinário em cima das falsas bases proféticas de seus líderes. Esse tipo de “profecia” nada constrói, mas somente destrói. Hoje existem aqueles que fazem plantão de profecias em programas de rádio, mas duro será o juízo dos falsos profetas...

Conclusão:
A doutrina pentecostal, com sua crença na continuidade do dom de profecia, em nada contradiz o princípio reformado de “Somente as Escrituras”. As profecias ajudam o coletivo, com encorajamento e consolação, mas jamais servirá como um orientador de vidas e construtor de doutrinas. A Bíblia e somente a Bíblia é a fonte da doutrina e práxis cristã. Tradições, costumes, palavras de líderes e profecias nunca devem ultrapassar as Escrituras.

Notas e Referências Bibliográficas:

1- Hoje os pentecostais preferem a designação de evangelicais, ou seja, nem fundamentalistas nem liberais. O fundamentalismo nasceu como uma reação ao liberalismo teológico e a alta-crítica do Século 19. R.A. Torrey e A.C. Dixon publicaram panfletos denominados de The Fundamentals, entre os anos de 1910 e 1915. Esses panfletos defendiam a inerrância da Bíblia, a deidade e a concepção virginal de Cristo, a expiação vicária, a ressurreição de Cristo e a volta física de Jesus. Apesar de terem uma doutrina e costumes originários do fundamentalismo, os pentecostais foram rejeitados em 1928 pela Associação Mundial de Cristão Fundamentalistas. Então os proclamados fundamentalistas, até a presente data, apresentam resistência ao pentecostalismo. Stanley M. Horton comenta que “pregadores de rádio fundamentalistas, como o pastor Donald Grey Barnhouse, insistiam em criticar os pentecostais classificando-os como um povo do 'diabo'”(O Avivamento Pentecostal. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 56.)

2- CABRAL, Elienai. Espírito Santo: a chama pentecostal. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 40, 1. trimestre de 1994.

3- PERLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 8 ed. São Paulo: Editora Vida, 1984, p. 203.

4- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.

5- CHOWN, Gordon. Os Dons do Espírito Santo. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 122-23.

11 comentários:

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá irmão Gutierres, seu artigo veio em muito boa hora, eu iria contactá-lo pelo orkut e pedir sua opinião com relação à profecia neotestamentária. Estou lendo o livro de Wayne Grudem(reformado), que defende a prática da profecia nos dia de hoje.

Segundo ele, a Profecia do Novo testamento ´poderia conter erros, onde palavras humanas seriam misturadas com a revelação divina.

Você afirmou que a profecia não era infalível, gostaria de saber se você concorda com essa tese, pois eu ainda não tinha averiguado essa particularidade, apear de nunca ter considerado a prfecia com autoridade igual a da Palavra de Deus.


Abraços Gutierres e Paz do Senhor!!!!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Irmão Victor Leonardo, a paz do Senhor.

Ainda na li a obra de Wayne Grudem, mas essa frase que você citou de sua obra está correta e não contraria a Teologia Pentecostal. Inclusive, a frase de Grudem é parecida com o pensamento de Don Stamps e Stanley Horton, quando esses teólogos pentecostais discorreram sobre o julgamento da profecia.
A profecia não é infalível por não ser matéria escriturística (o cânon está encerrado) e ainda Paulo manda julgar essas profecias.

Obrigado pela participação Vitor.

Anônimo disse...

Srs., acredito não ter entendido bem ... vcs. concordam que haja 'possibilidade de erros' nos escritos do Novo Testamento ou nas "profecias" proferidas dali em diante ?

Fábio Junior

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Fabio Junior.

NÃO há erros nos escritos do Novo Testamento! O que estamos dizendo é que as ATUAIS profecias estão sujeitos ao erros dos homens. A profecia atual não é equivalente a Palavra de Deus e está subjulgada à Bíblia.
Cremos que a Bíblia é inerrante, infalível, suficiente e é a Palavra de Deus.

Anônimo disse...

A sim. Obrigado pelo esclarecimento.

Este é, sem dúvida, um assunto dos que não podem ficar de fora da lista daqueles aos quais se deva atribuir suma importância, especialmente levando-se em consideração a turbulência vivenciada pela igreja atualmente.

É preciso cautela, pois, 'Supervalorizar' ou 'menosprezar' o alcance e os beneficios da 'profecia' no que diz respeito à edificação do Corpo de Cristo, pode ser determinante para a saúde ou doença espiritual do mesmo.

Falando como leigo, percebo que muitos líderes de igrejas aproveitam-se: 1 - Do velho desejo humano em querer antecipar-se aos acontecimentos futuros; 2 - Dos conceitos errôneos contidos nas férteis mentes, especialmente nas camadas menos privilegiadas da sociedade sobre profecias; 3 - Da "ganância do homem", princípal matéria prima para o sucesso da maioria dos "golpes". Para, em nome das ditas "profecias", manipularem ao seu bel prazer centenas e centenas de pessoas. Covardia !!!

Fábio Junior

Daladier Lima disse...

Em primeiro lugar, parabéns por sua abordagem didática e cadente.
Encaro a profecia como uma necessidade da sobrevivência espiritual da igreja moderna, estão faltando profetas!
É interessante anotar que os tradicionais também, de certa forma, profetizam, sem que o percebam. Isto ocorre quando interpretam o que está escrito, e contextualizam para seus públicos.
Quando alguém lê: O Senhor é nosso refúgio, e, em seguida, contextualiza com o público ouvinte está profetizando (falando em nome de Deus, uma mensagem divina).
O dom de profecia se destaca pelo fato de haver, por vezes, uma mensagem sem citações ipsis literis da Palavra de Deus, entretanto, em harmonia com a mesma.
Oremos para que tal dom abunde em nossas igrejas, muitas vezes dominadas pelo pragmatismo do estudo teológico em detrimento do espiritual. E olha que eu adoro estudar!
Outrossim, a igreja precisa dos demais dons. Hoje os crentes não buscam os tais porque, entre outras coisas, é duro conviver com eles (que o diga Jonas, em jonasolivro.blogspot.com). Mas sua necessidade está fora de dúvida.

Pr. Zwinglio disse...

Gutierres

Eqüilibrada e consistente esta sua postagem sobre "o dom de profecia" e "sola scriptura". Uma definitiva e bíblica resposta aos críticos.

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Além das alocuções propostas, aventuro-me a reafirmar que os dons são encarnacionais, razão pela qual a profecia e as manifestações pneumaticas devem ser discernidas. Que os abusos ocorrem, não há qualquer dúvida, pois a própria Bíblia o diz. Porém, a profecia não deixou de ser um dom necessário à igreja por ser encarnacional, pelos muitos "ranchos" e "profetadas" - para abusar dos idiotismos pentecostais - nos arrais pentecostais. Pelo contrário, é um dom didático e necessário. Entretanto, não é maior do que a Santa Escritura!

André Amaral disse...

Gutierres,

Confesso que não li o texto todo, como sempre digo, você escreve bem, mas esse texto me pareceu uma lição de E.B.D (entenda como quiser).

Abraço.

estou escrevendo em um outro blog

passa por lá

http://adeusigreja.blogspot.com/

Anchieta Campos disse...

Nobre irmão Gutierres, a Paz do Senhor!

Já havia lido este excelente artigo sobre o dom de profecia e a sua relação com a suficiência bíblica, mas somente agora tive oportunidade de deixar meu comentário e palavra de apoio ao que li.

Devemos sempre primar pela Palavra de Deus e seus ensinos. Os crentes de Beréia nos ensinam com maestria como proceder com aquilo que vemos e ouvimos na igreja.

Abraços fraternos!

Do seu amigo, irmão em Cristo e leitor assíduo de seu blog,

Anchieta Campos

Marcos disse...

Guitierres Parabens pelo Blog e pela postagem Devemos deixar claro que falar em Lingua e um dom de Deus para o que o edificam com verdade de todo o coração, e todo homem devem busca-lo com sinceridade e com dissernimento para a sua edificação e para a comunhão maior com o senhor!


Jesus e o nosso Salvador!

Quem tiver em duvidas sobre o falar em Linguas Leia ATOS 1 para frente !

Está na palavra de Deus nem precisa de discussão!

A Paz!